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domingo, 12 de outubro de 2014

O Nirvana do Desapego

Sempre opto por não me apegar-me a algo ou a alguém. Não gosto de me sentir presa a emoções e gestos sedutores que me fazem sair de mim. Prefiro parecer despreocupada e negligente do que estar propícia a tomar atitudes de baixos valores e sustentar falsas confianças. Assim não corro o risco de me decepcionar ou fracassar criando barreiras e impedindo de agir com minha própria identidade. Prefiro me machucar errando e aprendendo do que ser imóvel e enfadonha. Eu não sou uma santa para precisar saber tudo. Também não gosto de me explicar. Não exijo compreensão, piedade ou promessas baratas. Apenas busco respeitar para ser respeitada. Saudades não sinto. De tudo o que passa, tenho o tirocínio da vida e nenhum receio. Palavras roubam, curam, atrasam, congelam, enfervecem, mudam as estações e vão embora. De cada sonho, surgem novos momentos, pessoas e arbítrios. Sigo sem motivos de me deter ao que se foi e ao que virá. Talvez certas coisas se apeguem a mim, mas eu jamais me apegarei a elas.



quarta-feira, 25 de junho de 2014

O sonho - Clarice Lispector


Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida

e nela só se tem uma chance

de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte.

Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz. 


As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.

Elas sabem fazer o melhor das oportunidades

que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.

Para aqueles que se machucam

Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Fragmento de Clarice Lispector

"Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu queria amar o que eu amaria - e não o que é. É também porque eu me ofendo a toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário (…). Eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu."

(Clarice Lispector - do Livro: Felicidade Clandestina)